domingo, 16 de agosto de 2009

O que eu faço dentro de mim?

Nenhum comentário. Mas isso não me deixa triste, nem aliviada em achar que isto não é frequentado. Existem muitas formas de se inteirar dos fatos sem dar a cara a tapa. Com sutileza e jogo de cintura a boa esperteza toma lugar dos meios tradicionais de comunicação e fala por alguém que não tem coragem de mostrar-se. Não é uma ofensa, mas se fosse, não seria problema. Eu também sou uma dessas. Depois de estudar os casos de alguns doentes mentais e consequentemente f'ísicos, percebe-se a aceitação do obscuro, do feio, até que se chegue na adoração camuflada dos sentimentos perversos e comportamentos 'antissociais'. Camuflados sim, doutores. Quando fazemos algo de errado, é notório o alívio ao sabermos que alguém fez o mesmo, de modo que sentimo-nos acompanhados na desgraça. Ficar sozinho não é um ponto forte dos humanos.
Vemos que aqui já se encaixa o velho dizer de que o homem não é uma ilha. Huxley, querido, obrigada pelas contribuições de suas obras, mas acho que neste momento desejo reverter meus comentários para outro aspecto.
Sentir-se aliviado pelo infortúnio alheio só porque sabemos que não somos os únicos é normal (deixemos as discussões de {a}normalidade para a Psicologia Social). Porém, arranjarmos a justificativa para tudo, admitindo que o mal faz parte da sociedade e portanto do homem e sua subjetividade pode ser nocivo. Deixe-me expressar melhor.

Susy se relaciona bem com as pessoas. Gosta de fazer novas amizades e é simpática, divertida. De uns tempos pra cá Susy vem se sentindo sozinha, como se o mundo andasse e a deixasse para trás. Depois de passar por uma crise financeira em seu orçamento e saber, por telefone, que um parente muito querido falecera, Susy entrou em depressão. Não apenas por isso, ela não conseguia se relacionar com rapazes, pois era muito insegura e não conseguia comprometer-se com nada. Após dois anos de análise, Susy parece ter melhorado sua percepção sobre o mundo e, principalmente, sobre si mesma. Ela tem problemas, tem frustrações e às vezes recai ao sofrimento por ter perdido pessoas que amava. Porém, seu luto é reforçado por sua força de vontade, conquistada e descoberta no decorrer destes dois anos, o que a faz sentir-se mais feliz e querida pelos que a cercam. O problema neste caso, colegas, é que Susy ainda sente-se solitária e não segue as 'recomendações' de seu analista: sair mais de casa, procurar conhecer pessoas em lugares novos, aventurar-se. Susy acha cômodo ficar em casa e não gosta de experenciar mais, pois sente medo de fracassar e sofrer novamente. Podemos diagnosticá-la facilmente e encaminhá-la à terapia, mas há um impasse comum neste quadro: Susy acha que está tudo bem. Ela admite que a condição humana é repleta de prazeres, pois somos programados para isto. Porém, devemos experimentar os dissabores de nossos próprios atos e aceitar que temos limitações, que podemos sim sofrer em casa, pois isto pode ser útil no futuro.

As observações finais podem ser usadas pelo terapeuta para que ele diga que ela deve experimentar os dissabores de seus atos, aventurando-se mais, mas Susy não o dá ouvidos e continua acreditando que ficar reclusa em sua redoma é mais confortável. O circo fechou quando ela reencontrou uma prima que não via há anos, numa festa de inauguração da galeria de arte perto de sua casa. Cátia, sua prima, disse-lhe que aprendeu a conviver com a tristeza depois que o marido a deixou. Em uma visão onisciente, Cátia vive com alguns gatos e só sai de casa para trabalhar como atendente de uma loja no shopping. Assim como Susy, ela não tem muitos amigos e não costuma frequentar lugares que a façam ter contatos demais, pois isto significaria um risco de ser deixada mais uma vez.
Enfim, Susy reforçou suas crenças de que não precisa procurar ajuda nem em si, nem nos outros, visto que Cátia vive 'bem', então ela poderia viver da mesma forma. Encerrou a terapia e toda a sua vida voltou-se para a adoração de sua condição de miséria emocional.

Pode ter sido um exemplo extenso para uma simples explicação, mas acho necessário que se coloque em vias prolixas, para que o resultado seja mais recheado.
Estou gorda? o que há demais? eu gosto de comer, há tantas pessoas gordas..
Estou sozinha? o que há demais? eu gosto de ficar sozinha, há tantas pessoas sozinhas..
e assim seguimos nos espelhando nos outros, nos seus infortúnios e perdendo a coragem para mudar a nossa condição.
É bom acomodar-se? Quem deve medir em uma balança um tanto subjetiva é quem se faz esta pergunta. Comodismo é diferente de Conformismo. Há uma tênue linha entre estas duas instâncias.

Perpassando os conhecimentos existencialistas e fenomenológicos, o que chamamos de destino pode sim ser um ingrediente a mais na receita de aceitar-se em sua condição e não fazer tanta questão de mudar por conta própria. Afinal de contas, quem rege o meu futuro? O locus de controle, neste caso, é externo, interno? Há de se pensar se o homem tem mesmo a condenação suposta de que é livre, de que pode responder pelos próprios atos e ser 'alvo' das consequências destes.
Então, colegas que permaneceram aqui até este presente momento, o que vocês me dizem? Somos livres e desempedidos para mudarmos nossas vidas, independente do que aconteça? Ou temos uma força que rege por nós, permitindo que, mesmo que mudemos nossas atitudes, nossa história já está traçada?

Carrasco de Mim

Já acreditei no destino
porque era cômodo para mim.
Saber que se não consegui ser capaz
não foi culpa minha, era pra ser assim.
Hoje que o destino não me banca
sou o sujeito das minhas escolhas
e responsável pelos meus fracassos.

Mas o destino me condenou
a ser meu próprio Carrasco.

( artista desconhecido )

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

a culpa é sua

Ele foi embora. Deu Adeus e partiu, subitamente, assim como mostrou-se de início nesta história confusa e difusa. Nós dois sabíamos disso, sabíamos das dificuldades, sabíamos de tudo, poderíamos ter dito isso e muito mais, mas o sentimento calado, velado e atropelado tomou conta dos nossos momentos e assim, continuamos passando por cima de tudo, como se aquilo fosse algo trivial. Não sei ainda se devo iniciar esta ideia com um pedido de desculpas, por isso te peço compreensão. Foi algo trivial. Foi belo, foi divertido, inovador, uma experiência de aprendizagem.. mas todas são. Eu entendo que o seu pedido tenha sido justamente que isto não acontecesse, mas eu não posso engolir esta onda de franqueza guela abaixo e sorrir, iludindo cada dia mais alguém que estimo tanto. Pode ter sido este o problema.. a estima.
Não é de hoje que eu percebo a minha inquietante admiração por pessoas que não estão no hall das mais queridas. Para alguém que nada na piscina rasa: "Ela gosta é dos cafajestes". Mas eu não nado na piscina rasa. Eu nem nado. Eu me afundo no alto mar escuro e gelado, nas profundezas de qualquer coisa que pareça natural e ...trivial para alguns. Eu fui, sim, bem a fundo no que vivemos. Talvez tenha sido este o outro problema. O ideal era que eu me desligasse dessas análises apontadas para tudo e para todos. Freud, levanta deste túmulo e me salva da Psicanálise! Está incontrolável.. será um prenúncio de uma formação?

Bueno, deixando o acadêmico de lado - já (não)suportando o reinício das aulas tão brevemente -, voltemos, caros colegas, aos problemas da questão. É possível se desligar? A intenção era ao menos dar um Pause nas ligações neuronais incomodativas, mesmo que eu saiba que aonde quer que eu vá, eu vou achar defeito em algo. Ô imperfeição, para que fostes apresentada a mim? Eu gostava de ser Narcisa...

Pois bem, eu até dei a pausa necessária.. mas afundei fundo (permita-me a redundância, estou sensível) em outros mares que, vejo agora, não deveria ter-me afundado. 'tudo é válido na vida.. as experiências servem de aprendizado.. prefira arrepender-se por não ter feito..' é tudo muito fofo no discurso alheio. De fato, aprende-se vivendo, mas será que não podemos ser poupados ( ou, neste caso, pouparmos alguém ) do sofrimento? Eu não sou má, só me descobri... digamos assim.. desapegada.

A questão é que você não me deu chances de dar Adeus. A sua despedida não foi escancarada, como a sua chegada. Foi um seco 'boa noite' que selou a carta enviada para a Finlândia, sem previsão de retorno.


Interrompo a narrativa para finalizar com um pensamento que me impede de fazer qualquer outra coisa.
O dito cujo está bem acomodado, sentado no pudim, seguindo os referenciais psicanalíticos que o cercam. Ousadia, é uma palavrinha que estampou-se em sua testa quando reparei na presença de alguém notório e ao mesmo tempo discreto. No entanto, parece-me que tens medo de ousar, mesmo que não queiras, eu compreendo, seguir a estória. Rasgue as cortinas que te separam da vida real.. e pare de se esconder nos Seminários.

Retornando, não gosto de deixar inacabado. Eu não me despedi, mas com razão. Não me despedi de algo que eu não entrei. Não aprofundamos, nadamos no raso. E foi aprendizado, sabemos o que se passa nesses Km de distância.., então, deixemos assim.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

falar é dispersar

Tenho tanto ódio hoje do conformismo que foi tachado como apaziguador das mais diversas colisões de ideias. Muita gente fica quieta diante do que é fato, só pra evitar mais discussão e algazarra. Qual o problema de se discutir sobre algo que não agrada à todos? E mais, precisa-se de algo que agrade à todos? É partir da discordância que as opiniões mais valiosas emergem e trançam-se, enfileiradas ou debruçadas sobre os propósitos alheios, eu e você, caro colega, estamos aqui, no mundo, na vida, para discordar. Estamos aqui para fazermos algo, para executarmos a evolução. Quem a criou pode mudar o rumo da história, mas quem está atuando como fantoche e se acha no maior direito de sentar e esperar é você: humano preguiçoso e deprimente (significado correto da palavra deprimente: aquele que transmite sensações desagradáveis e agoniantes; provoca náuseas; deprime).


Temos boca para uma série de prazeres que a psicanálise já antecipa, mas dentre os que não relacionamos à alimentação - no amplo sentido da coisa -, encontra-se a arte do discurso. Cícero, dê o exemplo e nos mostre porque você é lembrado!

Agora que estou deveras satisfeita com o resultado subjetivo de minha apelação, torno a ser controversa e a pensar que às vezes é melhor calar-se a falar abobrinha. Ou boas verdades.
Devemos sim olhar-mo-nos no espelho para descobrirmos aos poucos do que somos feitos.. mas quando o nosso sino não toca e o cemancol não entra em ação, é quase que notório que algo sai de nós e é transmitido aos próximos:

"Por favor, me fale boas franquezas face a face, eu estou me iludindo".

Irrita saber que existem pessoas que são assim. Sim, caro colega, pessoas assim como eu e você, que tem pontos fracos e também não sabem o quanto escondem dentro de si próprios. Já dizia Nietzsche que é difícil conviver com os outros, visto que calar, isto sim, é muito mais difícil.

Chico, obrigada por traduzir em música meus extensos pensamentos..

"Quero lançar/Um grito desumano/Que é uma maneira/De ser escutado/Esse silêncio todo/Me atordoa/Atordoado/Eu permaneço atento/Na arquibancada/Prá a qualquer momento/Ver emergir/O monstro da lagoa..."

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Histórias que se mesclam são apenas relações de um mesmo contexto

E assim ele a deixou, em um dia negro com lágrimas pesadas caindo do céu, quando o vento nem soprava a seu favor, tampouco contra. Há dias que ela nota a decência de sua postura frente à uma simpatia que apareceu, podemos dizer, de repente. Pode ser que esta tenha sido intimidada devido a presença de uma sombra possessiva, que sem muitas palavras, tratava de afastar quem fosse que se aproximasse. Ou não. A desenvoltura de suas conversas pode ter se expandido por várias outras razões..que tolice atribuir à isto toda a mudança.


Há de se perguntar porque Sarah insiste em procurar parceiros comprometidos..é evidente que em algum momento eles irão deixá-la. Caso aconteça o oposto, e o marido separar-se da esposa e assumir seu relacionamento com ela, eventualmente Sarah seria feliz por alguns anos. Tempo depois, ela sentiria-se traída, deixada, esquecida. É assim que ela 'funciona': sua máquina emocional, se me permite esta antítese, é programada, desde o nascimento, para ser o centro da vida de alguém. Quando veio ao mundo, sua mãe a olhava como a flor mais bela do jardim, aquela que brilhava e ofuscava a beleza e graciosidade de todas as outras. Era a criança mais saudável do berçário, a mais comportada entre as irmãs, a que melhores notas tirava e enfim, a primogênita. Quando Sarah viu-se em segundo plano, tendo que dividir a atenção e os presentes que antes recebia inteiramente, surtou. Entrou em revolta e melancolia profundas, recusando-se a brincar, comer e conversar. Quem a tirou do escuro foi Bob, um bombeiro que por sorte teve a sensibilidade de procurar dentro do armário por crianças que poderiam ficar para trás na casa que pegava fogo seis meses depois do nascimento de Jena, irmã de Sarah. A casa ficou aos pedaços, como estava antes o coração de Sarah. Quando foi resgatada, sentiu o frescor de respirar ar puro e rever seus pais. Voltou a ser a menina doce e inquieta que era meses antes. Quem escuta este episódio por ora acredita que Sarah não teve problemas com seu posicionamento em suas relações, fossem elas de trabalho ou afetivas. Enganam-se, colegas. Ela encobriu seu lado possessivo e narcísico, deixando que se estabelecesse em sua personalidade aparente os traços de uma jovem absolutamente equilibrada.


Apenas após namoros longos, Sarah tomou-se conta de que aquelas sensações que a atormentavam quando tinha 7 anos de idade voltavam como ondas que após arrebentadas, parecem misturar-se às demais águas, mas que voltam acrescidas de mais volume para uma onda mais forte e arrebatadora. Quando terminou com Charles, seu primeiro namorado de longa data, Sarah viu-se sozinha na sala, sentada no sofá frente a lembranças que não queria mais ter.


Demorou a se apaixonar novamente, mas quando isto aconteceu, foi comedida e se entregou aos poucos, conseguindo a atenção do parceiro até a primeira discussão. Ela era misteriosa, envolvente, completamente duas caras. Meio a sopas instantâneas e barras de cereais, Ruth pergunta-a quem era o rapaz que interfonara de manhã perguntando por ela.



Devia ser o fruteiro, da banca da esquina.

Você encomendou alguma coisa?

Não, acho que não.

E por que ele interfonou, então?

Eu vou lá saber, Ruth? Por que você não o perguntou, hã? Seria mais fácil, ao invés de ficar me questionando.

Não estou... ah, hahahaha. Você acha que eu estou com ciúmes? Do fruteiro?




Desta vez, Ruth vestiu sua capa narcísica e berrou no corredor, quase vazio, como se precisasse fazer ecoar sua voz. Sarah deixou transparecer seu espanto frente à reação de Ruth, o que o fez 'baixar a guarda' e tentar consertar o que fez.


Desculpe, amor, mas eu não estou com ciúmes.. apenas quero saber o que ele queria, já que você não fez encomendas.

Sarah sentiu uma punhalada por saber que não presenciaria uma única fala de Ruth demonstrando ciúmes que ele mesmo poderia admitir. Ele era discreto, eventualmente pedia que Sarah colocasse roupas menos decotadas e gostava de abraçá-la quando homens passavam por eles, mas nunca dizia que sentia ciúmes; e, quando questionado sobre isto, ele desconversava. Seria uma dificuldade em assumir, tranquilamente, como qualquer pessoa sã e mortal que sentia ciúmes de sua parceira?
Segundo ele, ciúmes nós sentimos quando há reciprocidade no adultério, seja ele nem mesmo cometido no plano carnal, ou seja, mesmo quando um homem olhava para Sarah descaradamente, Ruth não sentia ciúmes, pois sabia que Sarah não retribuiria. Isto a deixava possessa.

Huhum..

Amor, não faz assim. Eu só perguntei se..

É Ruth, você só perguntou, como sempre. Só pergunta.

Você queria que eu pulasse no cara sem saber do que se tratava?

Ai, pára de ser criança.. você por acaso já sentiu ciúmes de mim?

Amor..esse papo de novo? Eu confio em você.

Sarah chora, e, como se tivessem tido uma longa discussão sobre, ela solta:

Acabou aqui, chega! Você vive a sua vida, e eu a minha.. se é pra eu ser apenas uma parte da sua vida, que você sequer se importa em não perder e demonstrar isso, então deu pra mim.

Amor..?

Sarah solta a cesta delicadamente no chão e sai, sem deixar rolar uma lágrima, dirigindo-se ao ponto de táxi.


Pra que ficar mordida de curiosidade em saber se ele foi ou não? Criatura, não seja tão instável.. qualquer um que te disser palavras ambíguas ou que mesmo queira ser seu amigo agora vai ser promovido à 'um cara que eu conheço, muito querido.. quem sabe rola' ?

Aprenda a dividir, little honey. Aprenda a dividir.

Completando a minha complexa contradição característica, trecho do livro mais bem escrito por MM.:

"(...)agora entendo que nunca estarei pronta, e que tudo o que preciso é conviver bem com meu desalinho e inconstância, que enfim aceito. Bom trabalho, doutor.".

domingo, 12 de julho de 2009

interpessoalmente limítrofe

Alfie, preparei muffins airados com pingos de calda de amora e recheio de chocolate, como você disse amar na infância. Aposto que eles ficaram melhores do que os que a sua avó fazia, se bem que, sua avó é um amor. Aquele dia na casa de campo da sua família ela me contou várias histórias sobre...

E ela insistia. Como conseguiu entrar tão profundamente na minha vida? Duas semanas de transas satisfatórias, alguns almoços convenientes quando minhas noites eram cheias demais para que eu me desse ao trabalho de telefoná-la, uma foto que (por descuido - e desta vez eu envergonho a minha classe de cafajestes) colocou tudo a perder:



Não, eu não me refiro ao dinheiro, ele não teria culpa da doçura exacerbada de Lilly no café da manhã. A minha foto, pequenino lindinho e fofinho, saudável, praticando esportes me transformou no novo... alvo dela.

Enquanto relembrava o episódio catastrófico de um almoço em FAMÍLIA (e ressalto, caro leitor, que Lilly, caso meramente sexual, não é parte da família) em que minha avó contava à ela como eu gostava de muffins, eu tentava despistar as primas que hoje já eram grandinhas e que insistiam em me seduzir.

Ah, perdoe-me pela desatenção, sou Alfie, um cafajeste incurável.

...ahahah como ela é adorável, não é Alfie? Alfie..querido? A l f i e ... A l f i e . . .

QUERIDO?

Alfie..

Lilly, vem cá, precisamos ter uma conversinha.

Sim, temos aqui um diminutivo saindo de minha boca. Contrariamente ao que um homem de verdade diria, com Lilly devo ser delicado nesta parte do diálogo, que logo tornar-se-á um monólogo (dela, evidente) autodestrutivo e..digamos assim, borderline.

Alfie.. eu sei, eu tenho agido como uma louca ultimamente..

Ela balançava a cabeça debochando de si própria e rindo quase que freneticamente, até notar a minha seriedade e voltar ao estado normal.

Eu prometo que vou tomar meus remédios religiosamente e ser uma mulher melhor pra você. Nós vamos ficar bem, eu cuido bem da casa..uma vez e outra, quando alguma agência de chama, eu vou lá, fotografo, e volto logo pra te esperar em casa. Meu amor..

E ela se aproximou, com as mãos pretendendo tocar em meu rosto. Segurei-a. Confesso ter sentido vontade de jogar o cigarro pela janela e tomá-la naquele instante, mas a imagem de minha avó criando expectativas de casamento e filhos me deixou contente com meu cigarro, sem sexo hoje.

Alfie, o que há? Eu estou aqui, suplicando o seu amor, mudando por você, o que tem de errado?

Lilly era perfeita fisicamente. Tinha cabelos loiros com mechas escuras que davam-lhe um ar de perigosa, mas seus olhos amendoados emprestavam inocência - que, cá entre nós, sumia meio à lençóis - . Lembro-me de um passeio que fiz na 6ª série do colegial ao museu de Manhattan, em que vimos esculturas gregas para a prova de história. Eu sempre odiei mitologia, quanto mais história algo tivesse, menos interesse obtinha de mim. Eis que miro uma escultura, em destaque numa sala vazia. Grandiosa e inspiradora, era a Afr..Afre..Afrot..Afrodite. Linda, a mulher mais bonita que eu já vi. Tinha um corpo escultural, perfeito, com curvas e nada a ser alterado. Seus cabelos, descoloridos visto ao gesso, pareciam em movimento, mas bem assentados em seu colo, mostrando, misteriosamente, seus belos seios. Éramos crianças, a professora não queria ninguém andando sozinho, então adiei o meu prazer de vê-la de perto. Alguns minutos depois, deparo-me com Afrodite de perto, tão perto que sentia seu odor imaginário e um sorriso que eu jurei ter captado da escultura de gesso feita há milhares de anos. Quanto mais eu me aproximava, a surpresa: mais a decepção entrava em minha mente e tomava conta de mim: Afrodite tinha rachaduras, era encardida, e não tinha traços tão bem definidos assim.

É como Lilly. Tem um corpo fenomenal, um sorriso e uma desenvoltura que qualquer homem desejaria. Mas possui hábitos detestáveis, doentios. Preciso afastar-me dela, já.

São os muffins?

Não, não são os muffins, eles parecem ótimos. Esta situação está chata, embaraçosa, eu ando me sentindo..

... distante? frio? entediado?

Não sei. Eu acho você marav...

Pode parar por aí. Eu sou bem crescidinha pra saber que quando um homem começa uma frase elogiando a mulher, é porque ele vai terminar o relacionamento.

Relacionamento... sinto arrepios.

Pode ficar tranquilo, eu já não estou mais aqui.

Assim, com estas palavras, ela pegou sua mala (sim, ela tinha levado uma mala com o tempo) e saiu, meio à lágrimas, em um fino e sensual vestido rendado; bege e preto, com um colar de pérolas que salpicavam um ar conservador em seu visual com as pernas de fora. Pude escutar ela descendo as escadas e, como um tornado que devasta kilômetros à fora, o sentimento de alívio tomou conta de mim, e eu traguei mais uma vez.

Táxi.. táxi! Droga!

Chovia.

Táxi...

Pela janela, eu via a rua vazia, alguns carros estacionados sendo contemplados com a chuva pesada e fria do outono. Havia indícios de neve nesta época do ano, mas o aquecimento global tem amenizado o sofrimento matinal de escovar os dentes e lavar o rosto com água fria. O frio de Nova York não entra em casa. Fora dela, você mantém o estilo de quem adora o clima gélido. Dentro dela, uma camiseta de manga comprida fina basta. Lilly, e suas pernas de fora.. fora.. pernas de fora.. pernas, oh pernas.. LILLY!

Apaguei o cigarro e corri desesperadamente, na esperança de encontrá-la acenando em vão para um táxi. Ao passar pela cozinha, a mesa decorada com um prato de cristal irlandês, ganhado pela empresa e surrupiado por mim, com os muffins airados com calda de amora e recheio de chocolate que só minha avó sabia fazer. Pelo visto, a conversa dela com Lilly rendeu bons frutos. Provei um e antes de sentir o gosto, lembrei-me de Lilly na chuva, prestes à sumir da minha vida. Abri a porta, desci as escadas. Sem casaco.

Ela precisa estar lá, ela precisa estar lá, ela prec...CACETE, QUE MUFFIN BOM! Lilly, esteja lá.

No último lance de escadas, saltei e me joguei na porta. Ela abriu para fora e Lilly espantou-se. Lá estava ela: com uma bolsa na mão e uma mala junto aos seus pés, que calçavam delicadas botas terracota de camurça, iguais às que ela usava na primeira vez que tínhamos nos visto. Molhada, já com o vestido colado em seu corpo, sua maquiagem borrada e seus cabelos escorridos na face, me olhou com desprezo, surpresa e...esperança. Sua fisionomia era semelhante à de um cachorro que espera ser perdoado e trazido de volta pra casa.

Lilly.. saia da chuva, vem cá.

Não, eu vou embora!

Mas..

Um táxi parou. Ela abriu a porta, jogou a mala, colocou um pé dentro do veículo, virou para o lado e.. me olhou. Era o que eu precisava! Um olhar! Saltei de meu lugar cômodo embaixo da cobertura do prédio e me molhei um pouco até entrar no táxi com ela. Ainda sentia o gosto da amora em meus lábios e Lilly não parecia contente.

Sai, Alfie!

Vamos conversar, eu me precipitei..suba, vamos! Taxista, pare! Ela vai descer!

Não, não vou, siga para East Village.

Não, pare!

Olha, decidam-se ou desçam os dois!

Pois sim, desceremos.

Peguei Lilly pelo braço e abri a porta. Saí, puxei-a, peguei sua mala e o táxi se foi. Lilly não se esforçou para ficar dentro do táxi, o que, até aqui, não me parece uma surpresa.

Lilly..

Olha aqui, Alfie. Eu nunca mais quero entrar na sua casa, da mesma forma que você nunca mais vai entrar na minha. Não me telefone, não me procure. EU dou as cartas agora.

Ela - discretamente, mas não tanto, de modo que eu pude perceber - sorriu no canto da boca e me olhou furtivamente.

Vamos para um hotel quando eu quiser que nos encontremos. Acabou o noss vínculo emocional: para você, nada mais do que o meu corpo.

Lilly, você realmente tem certeza disto?

Nunca estive tão certa. Anda, chame um táxi, preciso voltar antes que as minhas roupas na mala molhem todas.

Táxi!...Por favor, nos leve para o Milford Plaza.

Seguimos, eu como estava antes; e ela.. ah! caro amigo, ela nunca esteve tão segura de si.

" É difícil acreditar que um homem está a dizer a verdade quando você sabe que mentiria se estivesse no lugar dele"

Henry Mencken

sexta-feira, 3 de julho de 2009

as palavras e as coisas

a expressão se traduz literalmente como 'feia bonita', mas poderia ser mais caridosamente traduzida como 'estranhamente bela'. Jolie Laide representa uma ideia de beleza na qual uma pequena imperfeição realça a aparência de uma mulher e a torna mais interessante de olhar... No fim ela é mais sedutora e cativante do que alguém com uma beleza convencional.

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Pega por um pseudo ato falho? quase.. mas eu ainda quero saber de onde saiu aquele maldito Geraldo! A mente apronta, faz uma armadilha, ela sabe disso e cai como pata! incrível como o princípio do prazer explica as coisas, em suas palavras: "é como alcançar aquele objeto desejado e quando a satisfação deu-se como fogos em noite de ano novo, o interesse se esvai e nasce um novo desejo.. mas por outro objeto".
Te liga guria, estudar Psicanálise é uma auto análise sem custo monetário. Não, minto. Os livros da Roudinesco e a coleção do Lacan me custaram caro.
Vê só se ela vai conseguir se aventurar deste jeito justo com quem ela não pode! Parece que tem gente que não pensa, ou que pensa tanto que se afoga.. aí depois quer ser salva, bufando pelos cantos e tomado cuidado pra não ser reconhecida.


"A palavra ainda está desprovida de uma eficácia própria, desta
vez porque é apenas o signo exterior de um reconhecimento
interior, que poderia se fazer sem ela e para o qual ela não
contribui. A palavra não é desprovida de sentido, já que atrás
dela existe uma operação categorial, mas ela não tem esse
sentido, não o possui, é o pensamento que tem um sentido, e a
palavra continua a ser um invólucro vazio (...), a linguagem é
apenas um acompanhamento exterior do pensamento
" ( Ponty, M.)

E ela querendo entender o que sente.. hã, deita no divã, querida.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

tempo tempo mano velho.

meus neurônios fantasiados de relatórios gritam, berram:

love is all you need.

preciso de outdoor, ou de acelerador de tempo?