segunda-feira, 5 de julho de 2010

resgatando o conforto

Me contradigo; e acho que isto pode ser sério. Mudo de opinião com muita frequencia, não sei sustentar uma posição antes que ela me cause desconforto. Disse que nao ia correr, mas agora preciso fugir. Não suporto ficar, não suporto imaginar como vai ser.
O conhecimento que adquiri com o estudo da Psicologia me faz crer que o mais pertinente para diminuir o sofrimento psíquico é falar sobre o que incomoda, é suportar o desconforto, é desafiá-lo e combatê-lo.
Me vejo agora na sala com uma criaturinha que depende de mim, precisa de mim. Isso me desestabiliza. Não poder mudar de ideia, não poder fazer o que der vontade, voltar a ser dependente de alguém na medida em que esse alguém depende de mim parece ser uma ideia sufocante. Me dá náusea, tontura, crise de desespero.
A família dá uma risadinha disso e apóia a decisão de reverter as coisas e cortar o mal pelo tronco, até porque eles não entenderiam que a raíz é aquilo que a Psicanálise chama de recalcado.
Por outro lado, realmente permanecer com um bichinho tão lindo e pulguento agora não seria a melhor das ideias. Sair de casa, viajar e simplesmente nao querer sair da cama por um dia não seriam mais os meus melhores programas.
Ela é linda, mas o que ela supre aqui, na minha vida, não é a falta de um cachorro.
Ou até seja, se considerarmos a metáfora. O que ela supre não condiz com a presença de um amigo canino que faça companhia e bagunça. E XIXI NO TAPETE NOVO!
O que ela vem a tampar é o buraco da carência que fora desocupado sempre por eventuais casos sem permanência, que fora desocupado pela família que mora longe, que fora desocupado - às vezes desconfio - por mim mesma. Se me abandonei, ainda não sei.
Mas algo me leva a crer que se estou reagindo e me protegendo, por mais burro e lógico que isso possa parecer, ainda estou aqui, existindo dentro de mim.

Resta trabalhar.. e isso já sabemos que tenho feito bem;melhor do que amar, eu suponho.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

não vou correr. vou ficar.

O mundo, diz Bollnow, está lá fora, em toda sua vastidão, com seus pontos cardeais e regiões, com seus caminhos e estradas. Nesse sentido, como vias comunicantes, a porta representaria a liberdade para se abrir e se fechar com segurança, e as janelas, possibilitando a entrada de luz, seriam como olhos abertos para o exterior. A cama, em contrapartida, representaria o centro de máxima proteção, no qual o homem encontra calor e está em sua intimidade. Antes dela, a mesa teria sido o centro comum de uma família, reunida em torno das refeições. A atomização das relações familiares é o que levaria à busca de um centro correspondente para cada indivíduo, em que se encontrassem vinculados todos os caminhos interiores e exteriores à casa. A cama é, para o autor, esse centro, em que começam e terminam os dias de uma vida inteira. O dormir, a que ela se destina, é um abandono, um deixar-se cair em um espaço sem determinação. Ao dormir e ao despertar, perdemos e voltamos a ganhar consciência do espaço vivencial.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

show me what you got

"Se o observador está condicionando o fenômeno que observa, pode-se objetar que, nesse caso, não estamos estudando o fenômeno tal como ele é, mas sim em relação com a nossa presença, e, assim, já não se faz uma observação em condições naturais". (José Bleger)

Pergunto pra ele se é possível então observar algo sem que alteremos a naturalidade dos eventos. Ele me diz que toda intervenção altera a realidade do que é considerado, e a observação é uma intervenção na medida em que coloca-se na posição de poder modificar a percepção do observado. Exemplificando, vou observar um grupo de crianças numa creche afim de finalizar um trabalho sobre o exercício da autoridade na infância. Zequinha, Bruninha e Tiaguinho são birrentos e quando percebem que estou de "visita", passam a maltratar as crianças mais novas como forma de me mostrarem o quanto são populares e importantes. Evidente que este comportamento enriquece o meu trabalho, vendo ali a autoridade triplamente personificada. Mas.. e se foi só encenação?

Dá pra traçar uma comparação dessa situação com o que nos rodeia no cotidiano. E se estão todos forçando uma aparência pra socializar? É como se o real, o verdadeiro, o puro, estivesse e necessitasse estar escondido, assim como o Id na segunda tópica. Precisamos mesmo recorrer ao back to black para sermos quem somos?
Até onde conhecemos alguém e podemos nos sentir à vontade com elas? E se nunca pudermos estar à vontade com alguém que não nossos animais de estimação.. do que fala a liberdade humana? Liberdade agora soa mais convincente quando se trata de explicitarmos o que tanto nos cutuca implicitamente.
Não faço campanha e nem sei o que é melhor. Mas é a velha história do lassez faire: quem vai fazer primeiro? Ninguém? Alguém tem que fazer... eu não vou.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

pensar demais enlouquece. e revela

Todo o fantasma, toda a criatura de arte, para existir, deve ter o seu drama, ou seja, um drama do qual seja personagem e pelo qual é personagem. O drama é a razão de ser do personagem; é a sua função vital: necessária para a sua existência.

Luigi Pirandello


He's not gonna call. This is an fact that I should be learned since yesterday. But.. life is not perfect and I'll catch this bullshits that haunt my mind.

É fácil tirar o peso dos ombros e pensar que a culpa não é só nossa. Evidente que eu preciso de terapia, mas isso não significa que esta noite, assim, seja reflexo dos meus complexos. Se o Ghost fosse ao menos sincero, como deveriam ser todas as pessoas na minha utopia socialista, eu não ficaria tão frustrada. Sério, pra que prometer ligar e fazer alguém feliz com tanta antecedência? Qual é o medo em assumir as incertezas e limitações que todo mundo tem? Nos deparamos com a verdade e parece que não a aceitamos direito. Várias indiretas me enojam e eu suplico por respostas diretas. Depois, se eu falo com franqueza, sou a neurótica. Falar as coisas como elas são pra quem merece ouvir, hoje, é sinônimo de loucura. Acho que depois de tantas discussões sobre o cuidado na saúde mental em tornar o louco um cidadão com suas razões e princípios, apenas diferenciados, foi levada ralo abaixo.

Sozinha, e não é novidade. Antes só do que mal acompanhada? Não pensava assim no início da semana, quando esperava ansiosa por uma única ligação. Hoje, esmiuçando o que me é dado, realmente vale a pena repensar e querer o melhor.

Todas nós nos esforçamos e tentamos agradar, somos boas acompanhantes e fazemos os deveres de casa: estamos sempre depiladas, cheirosas, maquiadas, com unhas feitas e bom hálito. Somos educadas, gentis, discretas e devassas quando devemos. Qual é o problema? Não merecemos, então, uma boa companhia também, no mínimo?

Quando as relações deixaram de ser pontos de segurança e confiança e tornaram-se secas e vazias?

Quando se refere à duas pessoas e uma relação, muito cuidado deve ser tomado. A gente não sabe até que ponto vai conhecer alguém e, de repente, se deparar com um monstro disfarçado de conhecido. O Ghost se empolgou, disse o que disse pra agradar, conquistar e fazer uma menininha dormir pensando nele. Belo Ego, inventa frases, faz charminho e desdenha.

Francamente, até o Robô merecia mais do que isso!

Peço, suplicante, ao destino: se for pra enviar trouxas apenas, pode cancelar a conta.



quarta-feira, 9 de junho de 2010

the reason yelled

Perfeitos para uma refeição matinal, os cookies com glacê de Mercedes a fitaram por uma eternidade enquanto a garçonete corria pela cafeteria com uma xícara de chá borbulhante. Pediu dois cookies e quando os viu em seu prato, sentiu um berro estremecedor saindo de sua barriga. Outro de sua consciência.
"Moça, por favor, pode levar um? Não preciso comer os dois.."
"Desculpe, mas não posso mais colocá-lo na tigela, agora já está no seu prato, moça."
"Mas eu nem encostei neles. Estou de dieta."
"Senhora, me desculpe, são as normas.. poderia ter pensado na dieta antes de me pedir os cookies."

Uma vez lançada, a chance não volta? Da mesma forma com que Mercedes se comprometeu com os cookies e precisou comê-los, Theodoro sofria com seus múltiplos relacionamentos fracassados. Em algum momento, ele precisaria analisar o que andava acontecendo: sempre atraía os mesmos tipos de mulheres. E sempre era dispensado com as mesmas desculpas. Seria ele o problema? Existiria uma força cósmica capaz de dispensar o pleno uso da razão para escolhermos alguém? E se essa força existe e nos atrai sempre para os mesmos "tipos", porque é tão maldosa?

Theodoro sentou calmamente na mesa e a olhou com piedade: ela não sabia da missa a metade.
Ela refletiu durante o café da manhã.
Ele refletiu durante o passeio de ônibus.
Mercedes e Theodoro, em locais tão distantes na cidade, aproximavam-se no quesito número um para consciência pesada: a culpa.
Alice, namorada de Theodoro, sabia que mais dia menos dia a relação cairia ladeira abaixo, levando consigo as lembranças melindrosas do primeiro mês de namoro, com sorte. Se houve ilusão durante sete meses, Alice sabia que partia dela e que Theodoro sofria, mas gostava de sofrer. Na sua visão, ele era atraído por mulheres poderosas demais, que o obrigassem a ser submisso. Eu ouço ecoando da boca de qualquer leigo: ele é masoquista!
Mas não, não, não! Se ele é masoquista, então eu sou também! Então todo o meu grupo de amigas é também! Então todas as pessoas que eu conheço e posso supor que o mundo inteiro gosta, em alguma medida, de sofrer.
Parece uma suspensão proposital do hemisfério racional do cérebro, mantendo-nos dementes o bastante para nos atirarmos às cegas à uma história de amor que nos leva pra cima com violência e pra baixo com exatidão. Se todos somos neuróticos, como supunha Freud, então podemos admitir que em algum nível também portamos um masoquismo que se revela nas formas mais improváveis e nos relacionamentos mais impertinentes possíveis. Estou errada?

O que atrai na escuridão pode ser levado a mil e uma interpretações, mas com otimismo insisto na tecla de que pode ser uma forma de mostrar pra si mesmo o quanto podemos transformar a escuridão em algo claro, visível, controlado. Assim tornado, o objeto perde o interesse e é substituído por outro tão ou mais obscuro que o anterior. Assim foi e ainda é com Theodoro, que perde a sua essência misteriosa a medida que conquista as mulheres: torna-se tão palpável, que escapa. Ou melhor, é o escape.
E nesse vai e vem de histórias permeando a minha mente, traço o paralelo do comprometimento de Mercedes com a sua própria sentença, concomitante às relações fluidas de Theodoro, que busca o compromisso e a cada vez o vê mais longe.

Se saber sobre o assunto ajuda a combatê-lo? Não sei, mas dificilmente acredito que analistas estejam isentos de questionamentos. Assumo o contrário: fuçamos e esmiuçamos e espatifamos e metemos o bedelho em tantas patologias comuns do cotidiano que tornamo-nos não além de meros viciados em problemas. Nossos, deles.

sábado, 29 de maio de 2010

caos de vida no chão... why not in the air?

So, I'm waiting for the red umbrella.. and what do I do until this happen?

go read, sweetheart; go learn, go live your life... all this it's just a dream.

So, until he doesn't arrive, enjoy!

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Poemeto Irônico

O que tu chamas tua paixão,
É tão somente curiosidade.
E os teus desejos ferventes vão
Batendo as asas na irrealidade...

Curiosidade sentimental
Do seu aroma, da sua pele.
Sonhas um ventre de alvura tal,
Que escuro o linho fique ao pé dele.

Dentre os perfumes sutis que vêm
Das suas charpas, dos seus vestidos,
Isolar tentas o odor que tem
A trama rara dos seus tecidos.

Encanto a encanto, toda a prevês.
Afagos longos, carinhos sábios,
Carícias lentas, de uma maciez
Que se diriam feitas por lábios...

Tu te perguntas, curioso, quais
Serão seus gestos, balbuciamento,
Quando descerdes nas espirais
Deslumbradoras do esquecimento...

E acima disso, buscas saber
Os seus instintos, suas tendências...
Espiar-lhe na alma por conhecer
O que há sincero nas aparências.

E os teus desejos ferventes vão
Batendo as asas na irrealidade...
O que tu chamas tua paixão
É tão-somente curiosidade. (Manuel Bandeira)


seria eu desprovida e assim portadora de um "amor sensual comum", como diz o amigo Sig?