domingo, 27 de março de 2011

Sempre assim. nunca assado

Andre era esperto, fugaz, avassalador e muito charmoso. Cantava quem podia e a que caísse, ele dava um jeito de fisgar. Não era um galinha, nem um cafajeste. Ele é sincero, sabe ganhar uma mulher. Não fica com duas ao mesmo tempo. E dito isso, esclarece que só fica com uma mulher quando a outra souber que entre eles nada mais acontece. E é bem assim que ele faz.
É alto, com um corpo muito bonito, um cabelo ondulado que deixa seus olhos mais fechados, mais misteriosos. Seu olhar, melhor dizendo, é mais misterioso. Não se sabe pra quem ele olha e quando ele vai agir. Mas ele está sempre trabalhando. Casou uma vez e deve ter tido seu trauma, pois nunca mais quis um compromisso tão longo. E irremediável. Tem um sorriso que chama, qualquer pessoa quer ficar perto dele, é carisma. André é simplesmente carismático. Faz de tudo o que pode para fazer o bem, ajuda a quem pode e tem um ótimo relacionamento com a família. Tracem seu perfil, ele é um menino prodígio. Encontrando a mulher certa pra ele, vira um casal de propaganda de margarina.


Já Humberto tem lá suas qualidades. É inteligente, anda sempre cheiroso, independe de onde esteja. Tem um corpo de tirar o fôlego e seus olhos verdes são de arrasar quarteirão. Em compensação, seu olhar não me diz nada. Ou melhor, diz "eu não sei dizer nada", com aquele ar de charlatão querendo fingir que é alguma coisa. Pois Humberto é bem assim: uma farsa ambulante. Não sabe o que quer da vida, já passou por três faculdades e de transferência em transferência ele acabou na administração de empresas. Ganha um bom dinheirinho e conta com uns bicos de férias, fazendo publicidade em sites. Namorou por muito tempo uma moça bem meiga, loirinha de pele branca branca, chamada Isis. Sabe-se lá como ela o aguentava, pois as más línguas diziam que ele é impaciente e muito rabujento. O senhor da pastelaria da esquina sempre me fofoca que ele faz questão de rachar a conta com a namorada. Ou com quem quer que seja. Ele é egoísta, fala seu Jano. Sua mãe, que eu ainda não sei o nome, foi uma famosa costureira da Zona Leste da cidade e hoje faz pequenos reparos em casa mesmo, com a ajuda de uma assistente. A família de Humberto é meio fragmentada, talvez isso explique sua agressividade. Ah, não te contei que ele foi preso, contei?
Pois é, dizem os boatos que ele bateu numa mulher com quem ficou por umas noites e foi detido algumas semanas. Depois soltaram ele, esse papo de cidade pequena, sabe como é né?!
Mas é isso. Ele falha, mas taí pra quem quiser ver. Tem seus problemas, sua ficha meio suja.. mas ele, por outro lado, é transparente. Outro dia vi ele indo pra um prédio chique no centro. Fui lá, né?! Vi que ele parou no andar dos terapeutas. É meio famosinho.. todo mundo que para lá vai pra um. Fico imaginando se eles param no meio da tarde com aquele ar inglês pra tomar um chá e fofocar das neuroses dos pacientes.. não, não, aterrisa.
Humberto tem tentado melhorar, mas isso aí que eu disse é ele. Tudo isso e muito mais.

Cada qual com suas idiossincrasias.
Um universo aqui, outro lá. Os dois são irresistíveis de suas formas e tem lá suas passagens pela malícia. No primeiro contato, diríamos que o melhor partido é, sem sombra de dúvidas, o André. Até porque quem é que quer um Humberto agressivo da vida? O que ninguém sabe é que André também tem seus podres, muito piores que os de Humberto, mas não consegue expor. Defeito maior que esse não tem.

"Olha você; me diz que não vive a esconder.. o coração... Não faz isso amigo; já se sabe que você só procura abrigo, mas não deixa ninguém ver. Por que será á?"

É gente, da casca a gente entende bem. E aprofundar, arriscar, entrar, se jogar, alguém aí pode me dizer que entende? Alguém aí pode me dar a receita? Porque eu tenho alguém que quer, aquela velha história de um amigo meu que precisa daquilo que eu peço. Pois é.
E aí, vai encarar?

acima

Não sei como escrever sobre isso.. mas o fato é que disso preciso. Desaguar. Leitores, entendam a minha agonia. Mais uma vez o destino fez-se tão presente que eu pude sentir. Pude vê-lo, ou melhor, não vê-lo.

É curioso como sinais são enviados e nós, por mais que pensemos que são sinais, ignoramos, ou deixamos de lado em prol do ceticismo. O que mais precisa acontecer pra sermos mais sensíveis? Passei hoje, de novo, por uma experiência que me fez crer no destino, na força de atração, em Deus, não sei. É aquela velha nova dúvida que me deixa tão empenhada em desvendar meus pensamentos e crenças. O que é isso? Uma articulação de leis que juntas nos escrevem uma linha, e dela não podemos escapar?

"Vou deixar a vida me levar pra onde ela quiser. Estou no meu lugar, você já sabe onde é."
(...)
"Mil acasos me levam a você, num mundo concreto ou virtual."
(...)
"Tão fácil perceber que a sorte escolheu você. E você cego nem nota."
(...)
"Não precisa me lembrar; não vou fugir de nada..sinto muito se não fui feito um sonho seu."
(...)

E também não é por acaso que esse cd estava no automático pra tocar assim que eu apertasse Power. Nem nessa sequencia..

Essa agonia, eu sinto que o universo me dá material e eu não sei o que fazer com ele. Será que existe uma forma de entender isso? Será que é pra ser assim? Eu só sei que só consigo registrar a euforia e a dúvida de estar frente a algo tão grandioso e significativo.

Aquele que eu achei que fosse pra ser não é mais. Aquele que eu não queria que fosse, agora é. Sim, dona flor voltou com suas duas vertentes ramificadas e acaba de tomar uma decisão.

quinta-feira, 24 de março de 2011

desaguando à conta gotas

como a maçã apodreceu? como? quando tudo se estragou que eu não vi passar?

me guiei sozinha e sem pensar em direção ao computador e fui escrevendo, sentindo desaguar essa carga pesada que a gente se acostuma a carregar sem sentir exatamente o que é. depois de um tempo eu percebi a beleza disso que se põe em ato, de escrever, de poder ou dever colocar ideias em palavras, por mais que por serem ideias ja estejam envolvidas em palavras.
Sem escolher a hora ou o tema, parece que vem. só vem. quando vê...

essas lembranças não mais ameaçam a integridade do que eu considero confiança e auto estima, mas de algum jeito comprometem uma segurança, parece que ainda falta identificar um erro. tanto eu repito - e acredito no que penso e digo - que não deu errado. deu certo até aonde tinha que ter dado. tanto eu repito isso.. tanto eu repito, tanto eu repito, repito repito.

É que as lembranças boas me trazem aquele sorriso espontaneo e gostoso de se dar num dia de chuva, em que os pingos são trilha sonora e o escuro é o pano de fundo. tudo parece mais inspirador e, pelo barulho gostoso que a água traz, o resto fica em silêncio, e aí revela tanto mais..

revela, fala, conta. mas eu ainda não sei o que é. só sei que não quero fragmento de nada. disso eu sei. só disso eu sei.
eu sei? hã, sei. sei sim, sei de nada, isso sim.
só sei que sinto e sinto que não sei, e aí a clarice me sussurrou que " esta paciencia eu tive, e com ela aprendia: a de suportar, sem nenhuma promessa, o grande incômodo da desordem. Mas também é verdade que a ordem constrange. Como sempre, a dificuldade maior era a da espera."

quanto tempo mais eu vou precisar esperar? só pra saber..
só pra saber, eu vou precisar esperar?

segunda-feira, 14 de março de 2011

Espera. Espera aí só mais um pouquinho. Segura.

Sem expectativas, sem frustrações? Mas é possível não esperar nada? E a idealização, e o sonho? E o desejo? Será que alguém que use a racionalidade à mil conseguiria aniquilar todas as migalhas da pré-ocupação?

Quando Janine me olhou eu confesso que estremeci. Ela tinha olhos de águia e uma boca curvada pra dentro que demonstrava certo rancor, algo que nem a raiva era capaz de suprir. O que os seus cabelos loiros levados pelo vento me falavam eu esquecia, porque o aroma que dali saía e se infiltrava em mim era ensurdecedor. O olhar dela. Era isso que penetrava mais fundo. Eu sabia que dali eu tinha duas escolhas. Ou nos amávamos até o fim dos tempos, ou o ódio consumiria nossas carnes até que não sobrasse mais nenhum pó de osso. E o mais esquisito é não saber de onde brota a raiva, não saber que fim leva. É uma indiferença que fez morrer o amor. Não sei.

Voltando no tempo eu até entendo o atrito entre nós. In my place começa a tocar e eu me sinto num flash back que move todos os meus instintos, direciona a minha consciência pra uma tarde desesperadora atrás de um grampeador, no meio de um escritório lotado de pessoas vazias. Faltavam dois minutos pro prazo final e eu sentia o pé pesado na minha bunda, carimbado de uma longa procura por um novo emprego. No fim do corredor uma mesa vazia, uma caixa de utensílios e um porta-retrato, assim como nos filmes, como quando alguém é despedido. Corri. Grampeei e saí. Um vulto amarelo no chão me chamou a atenção.. ela estava abaixada catando as tachinhas do quadro de cortiça que usava para fixar os compromissos. Compromissos.. hoje são bobagem.

Sorrimos um para o outro e o meu desespero se misturou com a calma frustrada dela. Entreguei o relatório e pude conhecê-la, sem o pé na minha bunda. Pois descobri que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. O pé foi pesado na bunda dela, ou melhor, ela foi despedida. Essas faltas de respeito eram - por ela - motivo de brigas nossas que não vem ao caso discutir agora, mas quero te contar que o sexo depois disso era uma beleza.

Café, pizza, livraria, parque. Cinema, parque, café, noites. Bebidas, pizza, beijos, amassos. sexo. café. sexo, sexo e sexo. alguns beijos e mais sexo. café e parque. e o ciclo ia ficando cada vez mais diversificado, meu amigo. Eu não pude reclamar, mas quando o fiz, fui apresentado à família e tive a obrigação velada e social de apresentá-la aos meus parentes restantes. Vô, vó, aqui está a possível futura "neta" de vocês. Não, ela não é uma irmã.. na verdade parece uma, mas o que fazemos não é considerado incesto.

Alguns anos e eu podia jurar que tudo corria bem. Bom, dentro dela tudo corria, não sei se bem, mas corria. Janine tinha a mania de ter pressa pra tudo. Mesmo quando diz ter entrado na "vibe sossegada", ela tinha um formigueiro correndo pelas veias, picando cada pequeno pedaço de seu corpo que poderia relaxar. A cabeça sempre a mil. Cada palavra, uma nova associação e sempre uma discussão. Eu nem reclamo, já te contei que depois da discussão o sexo é bom, né? Pois é, então eu gostava desse jeitinho complicado dela de ver e fazer as coisas. Tipo fazer três sanduíches de mini pão com queijo branco e depois encher de doce de leite, só pra saciar logo a vontade de sobrepor sabores. Ou a mania desesperadora de sair de casa com uma tonelada de corretivo pra olheiras e mais dois litros de silicone no cabelo.
Mais uma vez, eu não reclamo, prefiro silicone no cabelo do que no corpo. Porque vou te contar, que corpo. Ali não faltava nada. Podia até sobrar, segundo sua consciência hipócrita. Janine pregava que não concordava com a ditadura da magreza. Mas tava sempre podando alguns exageros, correndo, usando roupas básicas e que "alongam". Ok, eu gostava do que se deitava do meu lado todas as noites.. e ela sabia disso.
Usava e abusava da minha boa e má vontade e sabia direitinho como me distrair de uma leitura pra rolar no chão da sala. Uma vez a coisa foi tão forte que a vibração das vassouradas do vizinho de baixo fez o orgasmo ficar mais intenso.

Pois bem, Janine era avassaladora. Criança, madura, divertida, linda. Mas ela não se bastava. Procurava tanto alguma coisa nova que quando conseguia nem curtia, já achava que era velho e queria outra coisa nova. Me surpreende termos durado tanto.

Mas aí que tá a lei do caso e acaso. Eu reclamei, pensei que ela era realmente um pouco problemática e mesmo que eu gostasse disso, eu fiz a besteira de me abrir com ela. Contei que eu adorava o jeitinho indeciso dela de saber se terminava as sessões de clareamento dental ou se juntava dinheiro para alugarmos um apê maior. Besteira minha. Aí ela começou com aquele papo de individualidade, de prioridades, de profissionalismo. Besteira, grande besteira minha.

Ficou uns dois dias meio monossilábica e no terceiro dia, o dilúvio. Tpm, telefonema da mãe, unha quebrada e dor nos rins. Eu fiz um chá, mas acho que piorei as coisas. De repente eu me vi na frente de um rádio com uma boca enorme, de onde saíam palavrinhas que flutuavam com pontos de exclamação por toda a parte. Ela surtou, sério que surtou.

Passou a noite encolhidinha e eu fui lá né, tentar dar um chamego, aquelas coisas que a gente faz pra manter o relacionamento cômodo. Ela ficou quieta. Certo que pensou "demorou, paspalhão", mas adorou os carinhos na nuca. Eu sei que adorou.

Depois de algumas desculpas e uns beijinhos doces ela foi trabalhar. Deixou o celular em casa. Ligou da agência nova de publicidade que abrira umas semanas atrás e disse que teria uma festa com os funcionários pra inaugurar algumas salas. Avisou que voltaria tarde.

8 e meia da manhã ela abre a porta meio descabeladinha, mas a maquiagem não tava borrada. Ufa, se a maquiagem estivesse borrada eu sairia batendo porta. Ela entrou com a pontinha dos pés e fechou a porta. Se virou e derrubou os sapatos de susto quando me viu sentado no braço do sofá bebendo café e lendo o jornal vencido. Sorriu e disse "Oi amor". Se escapou pra dentro sem nem um beijo de bom dia. À essa altura eu nem considerava uma conversa pra saber onde ela passou a noite.. eu achei estranho demais ela ter entrado direto pro banheiro se declarando culpada de alguma coisa.

Fui até o quarto e perguntei. Ela disse que eu não deveria sufocá-la, afinal de contas, nós apenas namoramos. "Apenas namoramos"? Ah tá, desculpa, eu vou perguntar isso ali pro seu João, já que ele é apenas um jornaleiro e nós "apenas temos uma relação cordial". É assim Janine?

Olha só, eu acho que a gente tem que repensar a nossa relação aqui. Eu fiquei a noite toda conversando sobre propostas no exterior e acho que isso seria bom pra mim. E pra nós.

Ela disse isso olhando pra mim de rabo de olho. Safada, eu sabia que alguma coisa de ruim tava correndo naquela cabeça. A Janine tinha dessas de passar dias calada e de repente quando abre a boca vem uma avalanche de informações acumuladas você não sabe nem de onde. Esse desequilíbrio dela me encantava. Aparentemente a minha observação minuciosa do que ela era e fazia não causava o mesmo frisson.

Do mesmo jeito que as águas se abriram quando Moisés quis, ela resolveu catar as coisas e disse que iria passar uns tempos na casa de uma tia no Rio de Janeiro. Até aonde nos lembramos, leitor, ela falava de exterior.. Porto Alegre - Europa não é tão mais caro que Rio de Janeiro - Europa, ainda mais considerando a urgência de um plano criado em uma noite. Eu sei lá, ela se foi e providenciamos o cancelamento do contrato com a imobiliária. Essa foi a parte mais correta, legamente falando, que passamos. Tinham regras, consequencias, objetivos claros. Nada era claro naquela relação, senão seus cabelos.

Dado esse fim, volto ao início. Nos conhecemos e já nos tornamos indispensáveis um para o outro. Não criamos a conquista com gosto de impossível, nem tivemos grandes obstáculos. Simplesmente seguimos os nossos desejos e ficamos juntos. Sem expectativas, sem frustrações. Mas.. e isso que eu sinto agora apunhalando o meu peito é o que, senão frustração vencida com vermes corroendo tudo o que a gente plantou junto?

Tem como começar um amor e terminar um amor sem planejar ficar velhinho, ou jogar frescoball com os filhos, ou beber vinho de noite, ou sei lá mais o que que se planeja? Tem como? Porque eu não fazia nada disso. Eu vivi de momentos com a Janine e agora fico pensando se ela ficou frustrada também. Fico pensando se a falta de expectativas por minha parte deixou ela se apagar, se confundir, se escapar. Ela planejou as sessões de clareamento dental e de repente se deparou com o aluguel de uma nova casa. Ela criava sim, expectativas. Ela pensava no futuro. Eu só a observava, registrando cada movimento seu, cada segundo que se passava eu respirava um pouco de ar de Janine. Não vivi passado, não vivi futuro.

Estou condenado a ter vivido pelo presente.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

ensaios frustrados de uma técnica enferrujada

é sempre o homem que menos se interessa que mais interessa. o que mais desafia, o que mais seduz. depois de ter tanto esforço pra entender o que se passava em sua cabeça quando alguém se aproximava, Melinda entendeu, na prática, a condenação de seus desejos. Ela pediu, no tempo de marasmo, que encontrasse alguém pra finalmente colocar em prática tudo o que achou que tivesse aprendido. Pois bem, desejo lançado é, incondicionalmente, desejo alcançado.
Hesse falou disso, sexta, no meu ouvido. Sussurou que eu devia reler Demian, pois meu inconsciente tava lá naquelas de não saber mais como se usar. Não atendi ao seu pedido, mas pude entender o que ele queria dizer: quando a gente quer muito uma coisa, ela acaba acontecendo porque nós a provocamos, mesmo "sem saber". É como direcionar as ações, afunilar os pensamentos, preservar em si o que prospera pra isso, o que pede por isso; o que quer isso?

Melinda atendeu. Era Ben, um rapaz tão doce. Ele em sua frente parecia uma réplica dos estudos de Locke e Pinker. Querida, põe pra fora tudo o que você tava trancando! Ela via nele a possibilidade de se entender, de se testar, de esquecer o que se foi. Tanta expectativa pra um homem, que mal sabia se queria sexo ou conversa. Projetou nele a mais bela obra e esperava que uma folha em branco a respondesse à altura. Sim, ele parecia ali, presente, mas não necessariamente só pra ela. Ele tinha lá suas questões e ela, tolinha, entregou aos poucos. Mantenha o mistério, Melinda. A vida não é lá tão frágil assim.. ele não vai morrer daqui um minuto, então espere um pouco mais pra que ele faça alguma coisa.

Pedir que uma mulher espere é admissível. Que ela não pense, é exigência além da conta. Somos todas problemáticas, Guilherme, não perca seu tempo dizendo aos quatro ventos que não quer mais se relacionar com alguém problemático. Você teria que se abandonar.
Todas somos carentes, paranóicas, agitadas e desastradas. Todas sabemos seduzir, fazer mistério e impressionar. O que muitas vezs frustra mulheres como Melinda são justamente essas particularidades de cada uma. Nem tudo isso tem tempo indeterminado e às vezes o desastre é maior que a delicadeza. É do que se queixam, o encanto acaba.. ou a pessoa se mostra?

Ben a trata bem, mas permanece fechado num casulo que Melinda tenta furar. Talvez por curiosidade, talvez por idealização de que dê certo, talvez por frustrar-se em não realizar um grande feito, talvez por querer ajudar. O que ela precisa saber é que o tempo é mano velho e bem mais experiente que ela. Ouça, Melinda, ouça aquela serenidade que te soprou um vento geladinho na face um tempo atrás. Ouça que é bom se jogar, mas lembra da cautela que a Lorena se orgulhou em ouvir. Você sabe o que quer, não perca o foco.

O que Hesse queria me dizer não devia ser que eu lutasse pra alcançar, mas que eu pensasse se vale mais a pena esperar que as coisas "simplesmente" aconteçam. Direcionar é melhor?
Se é outra entidade que vai se responsabilizar, eu entrego as cartas.. assim é tão melhor!
Já me disse uma vez que é mais fácil jogar a culpa no outro. Pois bem, ela é toda sua, faça o que quiser, eu vou ali viver e já volto.
esvaziou

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Correspondências. Até os títulos, até os títulos.

"é essa coisa de começo.. de começar alguma coisa. um estágio, que a gente já entra no meio do ritmo, na sessão, que eu tenho que buscar um assunto.. é meio complicado isso de começo pra mim eu acho."
"por que você acha que fica difícil começar?"
"sabe aquela coisa de lidar com o desconhecido? a gente lida, é natural, eu tô aprendendo isso e foi bom ter vivido tudo aquilo ano passado pra descobrir como eu encaro o meu desconhecido.. mas não é como se pra sempre eu conseguisse, naturalmente, começar alguma coisa sem uma pitada generosa de insegurança".

De começar o post nada seria mais oportuno. Hoje aconteceu muita coisa e nos últimos dias meus pensamentos, leituras e conversas tem sido guiados pro mesmo ramo de assuntos. Assusta, mas eu tô entendendo, eu sei que não é coincidência, eu sei que não é. Não pode ser.. é lógico e surreal demais pra ser um mero acaso.
E é justamente disso que eu falo, dessa forma de enxergar os acontecimentos: quem articula e puxa as cordas? será que tem alguém ali? quem será, quem será?

Dá pra pensar que quando a gente passa por alguma situação que nos cobra um tempo a mais de reflexão, os próximos eventos estejam envolvidos porque nós vemos dessa forma. É o viés daqui, dos meus olhos, pro mundo que me oferece uma série de possibilidades de interpretação.
Há dias que eu me queixo que o portal me diz a mesma coisa: 'todas as certezas são mutáveis, não se espante se as suas definições borrarem.'
Sempre assim, já desconfiava dessa repetição. Pois me surge a volta de algo que realmente estava me faltando, fosse a escrita, fosse a presença. Ao trazer isso em sessão, percebo que esse ânimo é muito derivado da minha própria forma de enxergar o mundo.

"Quando a gente tá seguro de si, olha pra frente de outro jeito.. vê as pessoas com outras caras e outros conteúdos pra aproveitar. É como se o flerte fosse mais divertido, é gostoso andar na rua e sentir que estão te olhando. E é tudo uma questão de saber se posicionar, de sentir. É algo indizível, Lorena, algo que a gente sente.. só transparece".

E assim foi. dá-lhe auto-estima recuperada depois de um turbilhão de absorsões tensas.

Voltando ao habitual rito que de alguma forma me alimenta o êxtase, percebemos que os relacionamentos partem, pra além da atração, de um egocentrismo declarado e insano, cá entre nós. Vemos ali no outro um mundo de possibilidades, várias vagas pra estacionar. Escolhemos aquelas que nos agradam e é aí que se forma a mais bonita e complexa projeção de todas - se é que existe uma variedade delas. Amamos no outro o que nos lembra, e isso tem explicações razoáveis, visto que as qualidades que nos atraem no outro são, já de alguma forma, escolhidas por nós. Os defeitos é que nos põe à prova; e pra mim, sempre foi mais verdadeiro apaixonar-se pelo peculiar.

Falamos também de tantas outras coisas leitor, que você não pode imaginar a minha felicidade em saber que tudo isso foi repetido hoje, de uma forma sensacional.

Quando eu voltei a ler o livro da libanesa, percebi no capítulo o risco de um trecho que muito me agradou. Nessa parte ela contava de coincidências.

"Quando conheci o Pensador, o fogo crepitou e me queimou durante um tempo, principalmente após sua partida. Teria sido esse o preço que eu tinha de pagar pela viagem de reconhecimento que vivi com ele? Teria sido esse o preço que tinha de pagar antes de voltar à vida? Antes que outros Pensadores viessem, para que eu pudesse continuar a ter minhas descobertas".

Foi isso aí, já nem sei mais como eu acrescento coisas, me dá um nervoso não conseguir entender porque as coisas estão acontecendo com tanta sincronia. Eu fico feliz, muito feliz, eufórica. Mas dá um medo. Do desconhecido talvez, né Lorena?

Com ela eu falei hoje desse limite que eu estabeleci nos últimos meses. O meu desenvolvimento pessoal, a minha singularidade, o meu território. Eu sei que o chamei de imbecil tempo atrás, mas não nego, ele é mesmo. O que acrescento é que a presença de alguém como ele, que pudesse escancarar as minhas fragilidades foi muito importante pra que esse processo de conhecimento e aceitação acontecesse.
"Mas o importante é pensar que não foi ele né? Podia ter sido qualquer outro, que como ele, abriu essas portas e te mostrou o que você não conseguia ou não queria ver. "

"E quando ele fez isso é óbvio que bateu a antipatia. Normal que a gente desgoste de quem nos esfrega um problema, mas eu entendo que eu sentiria isso por qualquer pessoa que estivesse no lugar dele.. é um treino porque com os próximos o meu comportamento e posicionamento mudaram".

E sabe o que é o melhor disso? É saber disso. É estar consciente de que deu pra mudar, deu pra entender. Disse pra ela que eu já não queria mais tanta pressa e promiscuidade assim, de mão beijada. Disse também que o fato agora não é ser difícil, é valorizar. É saber que eu mereço alguém que demonstre. E ela concordou, brilharam aqueles olhos tão cheios de paciência em tanto me ouvir.
Acho que existe um esquema bom pra isso. Antes de mostrar o esquema, falamos do filme da bailarina, que encara o "lago" negro. Por um ato falho eu pude falar dessas falhas que nos constituem. Já volto neste ponto*

O esquema, Lorena, são duas circunferências que tem um espaço em comum. A intersecção é o que, numa relação, se constrói de "nosso". Mas existem as partes individuais, que pra mim são essenciais e nunca podem ser aniquiladas, por maior que o amor seja. Pra saber como fazer o "nosso", eu preciso antes construir o meu "eu".

Os olhos dela brilhavam e ela balançava a cabeça demonstrando total concordância, orgulho até.

" E sabe de uma coisa? eu tô adorando esse meu espaço. Eu sei que já falei aqui daquele vazio que me incomoda, da solidão após um período de tanta fusão.. mas quem não sente? e não só por isso, mas eu sei que no momento em que eu cair, eu vou poder aprender. isso me basta"

Foi o que disse à ela. Eu gosto, eu quero, eu desejo. Jac, eu gosto, eu quero, eu desejo. Eu sinto que podemos construir um "nosso". Era isso que faltava antes, no ano passado. Não tinha a intersecção, estava eu na defensiva. Tanto tanto. Mas com Jac.. será que dá pra fazer um "nosso" no capricho pra viagem? Pago à vista! Eu gosto do nosso jeito, da nossa conversa, desejo aquele primeiro olhar.
"Eu quero conhecer aquele mundo, Lorena.. quero explorar esse desconhecido, quero realmente relacionar, envolver, criar".

Mas

Mas com cautela. Já me joguei, vi que sem gostar de alguém antes, o beijo já não vale, o sexo tampouco e a química é essencial. Tem que ter gostinho de conquista, de vitória, de roubo de olhares e intimidades que se fazem através do tempo. Só dele. Eu quero ir, Lorena. Eu vou, mas vou com o meu espaço da circunferência bem delimitado. Eu sou mais importante.

Quando ela falou do filme do cisne comigo, percebemos a importância dessa identidade. Título que me deu vontade de engolir em todas as livrarias, tão falado, tão falado. Não é coincidência. Eu sinto que não é.

Hoje encontrei uma amiga que, numa sintonia louca e que ainda me deixa atônita, me deu um conto a ler. Vou fazer o maior post da vida, mas hoje merece tudo.

"Por não estarem distraídos"
Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

Foi o que eu precisava ler. Ela me deu, ali, pra ler.

E aí falamos da minha relação com as palavras. Que eu também falei com Lorena mais cedo. Nomear, definir, limitar, perder. Nada mais. é isso, não se sente mais?

Depois de ter dito que era exatamente isso, abrimos a fotobiografia da Clarice e vimos algumas coisas. Fechou. Logo ela ficou inquieta e eu me dirigi até ela, sem que ela me chamasse. Senti que devia sentar ali. Ao que ela me diz:

"Vi, eu ia te chamar pra ver uma coisa do livro, mas nao lembrava a pagina.. aí abri o livro e foi nessa, era isso que eu ia te mostrar, foi na mesma pagina! Olha. Lê isso"

Aí ela senta ao meu lado e lemos juntas o que tantas vezes eu tirei trechos e não sabia a origem. É tudo o que em outra vida eu sussurei nos ouvidos da Clarice, tenho certeza disso.

"
A Tania Kaufmann


Berna, 6 janeiro 1948


Minha florzinha,

Recebi sua carta desse estranho Bucsky, datada de 30 de dezembro. Como fiquei contente, minha irmãzinha, com certas frases suas. Não diga porém: descobri que ainda há certas frases suas. Não diga porém: descobri que ainda há muita coisa viva em mim. Mas não, minha querida ! Você está toda viva! Somente você tem levado uma vida irracional, uma vida que não parece com você. Tania, não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso, nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro. Nem sei como lhe explicar, querida irmã, minha alma. Mas o que eu queria dizer é que a gente é muito preciosa, e que é somente até certo ponto que a gente pode desistir de si própria e se dar aos outros e às circunstâncias. Depois que uma pessoa perder o respeito de si mesma e o respeito de suas próprias necessidades, depois disso fica-se um pouco um trapo.Eu queria tanto, tanto estar junto de você e conversar, e contar experiências minhas e de outros. Você veria que há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo. Eu mesma não queria contar a você como estou agora, porque achei inútil. Pretendia apenas lhe contar o meu novo caráter, ou falta de caráter, um mês antes de irmos para o Brasil, para você estar prevenida. Mas espero de tal forma que no navio ou avião que nos levar de volta eu me transforme instantaneamente na antiga que eu era, que talvez nem fosse necessário contar.
Querida, quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma num boi ? assim fiquei eu...., em que pese a dura comparação....Para me adatar (sic) ao que era inadatável (sic), para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus guilhões, cortei em mim a força que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também minha força. Espero que você nunca me veja assim resignada, porque é quase repugnante.Espero que o navio que nos leve de volta, só a idéia de ver você e de retomar um pouco minha vida, que não era maravilhosa mas era uma vida, eu me transformei inteiramente. Mariazinha, mulher do Milton, um dia desses encheu-se de diferente, não era? Ela disse que me achava ardente e vibrante, e que quando me encontrou agora e disse: ou esta calma excessiva é uma atitude ou então ela mudou tanto que parece quase irreconhecível. Uma outra pessoa disse que eu me movo com uma lasidão de mulher de cinqüenta anos. Tudo isso você não vai ver nem sentir, queira Deus.
Não haveria nem necessidade de lhe dizer, então....Mas não pude deixar de querer lhe mostrar o que pode acontecer com uma pessoa que fez pacto com todos, e que se esqueceu de que o nó vital de uma pessoa deve ser respeitado. Minha irmãzinha, ouça meu conselho, ouça meu pedido: respeite mesmo o que é ruim em você – respeite sobretudo o que você imagina que é ruim em você – pelo amor de Deus, não queira fazer de você uma pessoa perfeita – não copie uma pessoa ideal, copie você mesma – é esse o único meio de viver. Eu tenho tanto medo de que aconteça com você o que aconteceu comigo, pois nós somos parecidas. Juro por Deus que se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia – será punida e irá para um inferno qualquer.
Se é que uma vida morna não será punida por essa mesma mornidão. Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo aquilo que sua vida exige. Parece uma moral amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma. Espero em Deus que você acredite em mim. Gostaria mesmo que você me visse e assistisse minha vida sem eu saber – pois somente saber de sua presença me transformaria e me daria vida e alegria. Isso seria uma lição para você. Ver o que pode suceder quando se pactuou com a comodidade de alma. Tenha coragem de se transformar, minha querida, de fazer o que você deseja – seja sair nos week-end, seja o que for. Me escreva sem a preocupação de falar coisas neutras – porque como poderíamos fazer bem uma a outra sem esse mínimo de sinceridade ?
Que o ano novo lhe traga todas as felicidades, minha querida. Receba um abraço de muita saudade, de enorme saudade de sua irmã

Clarice."

Disse a ela o quanto eu estava surpresa. Meus olhos só encheram de lágrimas. Ela falou a expressão que eu estava a ponto de falar e ali eu vi que a sintonia não é brincadeira
Ei, você, que puxa as cordinhas aí em cima, vem aqui me acalmar, me explicar que a vida é assim mesmo, que as coisas acontecem desse jeito meio desordenado e que eu posso continuar que o plano tá indo pro lugar certo.

Repeti tanto tudo o que tinha conversado com Lorena, com Jac e agora com ela, que me escutou, deu sua opinião, me falou do autor do livro que eu procurei hoje, que conversei com Jac ontem e que Lorena lia antes da sessão. Não é coincidência. Eles todos me dizendo um algo que não me desce, que me inquieta. O mesmo autor! Quatro pessoas, o mesmo autor!
Me arrepia e me dá esperanças saber que ele está nesse mesmo emaranhado de acontecimentos. Com ou sem insanidade, enquanto ele permanecer, escrevo.