Como um sopro de frescor, a chuva foi e veio e agora me sinto confortável se ela demorar a chegar.
Acho que o precisa-se mesmo é de peças substituíveis neste jogo manipulado por sei lá quem.
Sorrisos, abraços, carinhos, saudades. Sabe-se lá até quando vai durar.. dali a pouco escutamos críticas, deboches e reclamações de currículo e tudo o mais. Assim que é bom, é saudável, é renovável.
Mais um ponto pra caixinha de surpresas: não pensava que gostaria tanto de continuar a conviver com quem me cerca. Acho que a sensibilidade tomou conta e estou com bons humores.
Resta apenas saber se as outras parte da vida acompanharão esta boa maré.
Os personagens de meu romance são minhas próprias possibilidades,que não foram realizadas.É o que me faz amá-los,todos,e ao mesmo tempo temê-los.Uns e outros atravessaram uma fronteira que me limitei apenas a contornar.O que me atrai é essa fronteira que eles atravessam(fronteira além da qual termina o meu eu).É somente do outro lado que começa o mistério que o romance interroga.O romance não é uma confissão do autor,mas uma exploração do que é vida humana na armadilha que se tornou o mundo.
segunda-feira, 8 de março de 2010
domingo, 7 de março de 2010
de prata ou bijuteria?
Te vi hoje, e você foi a minha chuva. Foi bom te sentir em mim, disse Claudia, já embriagada do líquido que lhe ofereceram. Mal ela sabia que nunca deveria aceitar bebidas de estranhos; considerando que não conhecemos nem à nós mesmos, não deveria aceitar nada de ninguém. Mas... o ser humano é curioso.
Voltei, depois de um dia ocioso, esperando notícias, voltei, pro casulo que agora me protege. Voltei esperando que houvesse uma surpresa, fosse ela agradável ou não, a única coisa em que não tomo gosto em me apoiar é nessa incerteza que dá ânsias e vicia tanto. Se as situações fossem definitivas e claras, talvez o mistério não encantasse.
Pois bem, Claudia voltava para casa recebendo com carinho os pingos que a molhavam cada vez mais, num cenário de chuva e sol, que a entorpecia.
Pensou que talvez estes mesmos pingos que a faziam sentir-se mais jovem, fresca, alegre, poderiam ser os pingos que Juliot depositara desde o dia em que se cruzaram. Entendendo isto com conotação sexual ou não, ela não ligava: queria apenas refestelar-se em sua mais nova descoberta.
Disse, em uma noite com a lua quadrada:
"Você é a minha chuva; vem à mim delicadamente, mas sem pedir, como o que não esperei, mas desejei. Se instala em minha pele e vai penetrando em meu ser, até que tome conta de mim. Há más línguas que dizem que os acometidos pela sociopatia, em seus 'relacionamentos pessoais', armam o circo e depois vão embora, como se fossem vítimas. Você me provoca desconfianças que o colocam nesta posição. Estaria você plantando uma semente que não quer colher?
Devo sim estar desconfiada, isto já aconteceu antes e por mais que digas que não és igual aos outros, sinto medo."
A chuva ia caindo e ela deleitava-se num prazer singelo, pueril, mas nunca superficial. Claudia pensava que a chuva é a melhor das companheiras, pois não precisa aparecer todos os dias para que a apreciemos. Não nos viciamos nela, então podemos curtir quando chega sem pedir.
"Você foi minha chuva. Veio sem pedir e agora está grudado"
O que Juliot não entendia era que isto era um milagre, que deveria ser apreciado até as últimas consequencias do primeiro ato, da primeira palavra, do primeiro olhar.
Saudades eles sentem das épocas em que o compromisso era ignorado. Hoje vemos mais um típico caso de separações e desencantos vagarosos, em que um desabrocha antes do outro.
Ele foi sua chuva e ela gostou, até que ele se apresentasse apenas enquanto chuva. Pois a chuva é passageira e por mais que permaneça na lembrança eternamente como o momento de redenção das almas, não é necessidade de sobrevivência como o sol. Ele, portanto, era a sua chuva. Claudia pedia incessantemente para que Juliot não se tornasse o seu sol, pois a chuva refresca, prova a vida".
Voltei, depois de um dia ocioso, esperando notícias, voltei, pro casulo que agora me protege. Voltei esperando que houvesse uma surpresa, fosse ela agradável ou não, a única coisa em que não tomo gosto em me apoiar é nessa incerteza que dá ânsias e vicia tanto. Se as situações fossem definitivas e claras, talvez o mistério não encantasse.
Pois bem, Claudia voltava para casa recebendo com carinho os pingos que a molhavam cada vez mais, num cenário de chuva e sol, que a entorpecia.
Pensou que talvez estes mesmos pingos que a faziam sentir-se mais jovem, fresca, alegre, poderiam ser os pingos que Juliot depositara desde o dia em que se cruzaram. Entendendo isto com conotação sexual ou não, ela não ligava: queria apenas refestelar-se em sua mais nova descoberta.
Disse, em uma noite com a lua quadrada:
"Você é a minha chuva; vem à mim delicadamente, mas sem pedir, como o que não esperei, mas desejei. Se instala em minha pele e vai penetrando em meu ser, até que tome conta de mim. Há más línguas que dizem que os acometidos pela sociopatia, em seus 'relacionamentos pessoais', armam o circo e depois vão embora, como se fossem vítimas. Você me provoca desconfianças que o colocam nesta posição. Estaria você plantando uma semente que não quer colher?
Devo sim estar desconfiada, isto já aconteceu antes e por mais que digas que não és igual aos outros, sinto medo."
A chuva ia caindo e ela deleitava-se num prazer singelo, pueril, mas nunca superficial. Claudia pensava que a chuva é a melhor das companheiras, pois não precisa aparecer todos os dias para que a apreciemos. Não nos viciamos nela, então podemos curtir quando chega sem pedir.
"Você foi minha chuva. Veio sem pedir e agora está grudado"
O que Juliot não entendia era que isto era um milagre, que deveria ser apreciado até as últimas consequencias do primeiro ato, da primeira palavra, do primeiro olhar.
Saudades eles sentem das épocas em que o compromisso era ignorado. Hoje vemos mais um típico caso de separações e desencantos vagarosos, em que um desabrocha antes do outro.
Ele foi sua chuva e ela gostou, até que ele se apresentasse apenas enquanto chuva. Pois a chuva é passageira e por mais que permaneça na lembrança eternamente como o momento de redenção das almas, não é necessidade de sobrevivência como o sol. Ele, portanto, era a sua chuva. Claudia pedia incessantemente para que Juliot não se tornasse o seu sol, pois a chuva refresca, prova a vida".
sexta-feira, 5 de março de 2010
Entorpecentes esperados
Sabina foi pega de surpresa. Caiu na armadilha e agora já sabe que para sair, terá de usar boas molas pra alcançar a superfície do poço do amor em que se meteu. Ela sabia, já havia comentado anteriormente que sempre desconfiou que se houvesse insistência, ela cederia. Apesar de sua negação, primeiramente resistente, Sabina revelou-se permeável, pois bem, agora está perdida na mata escura e penetrante, que a engoliu bruscamente.
Quando dizemos, caros colegas, que as melhores surpresas da vida acontecem justamente enquanto surpresas, não falamos da boca pra fora. Sabemos que o inesperado seduz, nos pega pelo pescoço e nos faz gemer até que gritemos que concordamos que o que é proibido, inaceitável, impossível, é o que queremos.
Ô Lacan, brigada por mais uma vez descrever o objeto "a" enquanto central na minha vida, acho que eu estudo tanto Psicanálise pra depois aplicá-la em mim.
Quando Sabina abriu os olhos, sentiu-se revitalizada, sentiu-se confortável, sentiu-se livre. Há um aspecto intrigante meio à liberdade. Sabina sempre a desejou, nunca tomou gosto por prisão, compromisso e tanta estabilidade em sua vida amorosa. Porém, dadas as circunstâncias do destino, Sabina está livre, mas sente-se solta demais, desamparada demais, livre demais. Seria mais uma de suas armadilhas em que cai sempre ou seria sua mudança, tão esperada e temida?
Sabina está se tornando fiel, comprometida, estável. Isto a deixa instável, medrosa, temerosa.
Não sabendo como agir, torna-se agressiva, como um animal que fora maltratado e quando recebe carinho, afugenta-se. Tanto conversou com seu colega de filosofadas, a agressão nada mais é do que um mecanismo de defesa. Os brabinhos são carentes e não conseguem (não por incapacidade, mas por ignorância. Entendam o termo corretamente, como a ausência do saber, ausência da experiência) expressar quando amam. Estes, os raivosos, precisam é de carinho, amor e segurança.
Pois é, Sabina está recebendo isto e teme tanto perder este porto seguro que se esvai em conversas intermináveis madrugada adentro, desejando a presença de tal ausência.
Mas agora, acabo de notar que Sabina sente é vontade de ter mais carinho! É a evidência perfeita para que confirmemos o quanto ela é uma pessoa presa à terra firme. Sabina está conosco, apenas deixa por vezes sua face perversa tomar conta de si. E agora, colegas? Como tratamos deste caso?
Ela pretende ser sincera, mas não até as últimas consequências, pois isto a traria novamente ao fundo do poço do amor escuro e sombrio.
Será que, por revelar sua alternância obscura Sabina não gostaria de experimentar novamente tal situação?
Esperemos para saber, afinal de contas, não há de se esperar que ela mude tão bruscamente... se mudar, há a tênue esperança de que volte a ser como sempre foi.
Já dizia Nietzsche, pressupondo o que sinto agora: "O medo é o pai da moralidade".
Sabina, seja imoral.
Quando dizemos, caros colegas, que as melhores surpresas da vida acontecem justamente enquanto surpresas, não falamos da boca pra fora. Sabemos que o inesperado seduz, nos pega pelo pescoço e nos faz gemer até que gritemos que concordamos que o que é proibido, inaceitável, impossível, é o que queremos.
Ô Lacan, brigada por mais uma vez descrever o objeto "a" enquanto central na minha vida, acho que eu estudo tanto Psicanálise pra depois aplicá-la em mim.
Quando Sabina abriu os olhos, sentiu-se revitalizada, sentiu-se confortável, sentiu-se livre. Há um aspecto intrigante meio à liberdade. Sabina sempre a desejou, nunca tomou gosto por prisão, compromisso e tanta estabilidade em sua vida amorosa. Porém, dadas as circunstâncias do destino, Sabina está livre, mas sente-se solta demais, desamparada demais, livre demais. Seria mais uma de suas armadilhas em que cai sempre ou seria sua mudança, tão esperada e temida?
Sabina está se tornando fiel, comprometida, estável. Isto a deixa instável, medrosa, temerosa.
Não sabendo como agir, torna-se agressiva, como um animal que fora maltratado e quando recebe carinho, afugenta-se. Tanto conversou com seu colega de filosofadas, a agressão nada mais é do que um mecanismo de defesa. Os brabinhos são carentes e não conseguem (não por incapacidade, mas por ignorância. Entendam o termo corretamente, como a ausência do saber, ausência da experiência) expressar quando amam. Estes, os raivosos, precisam é de carinho, amor e segurança.
Pois é, Sabina está recebendo isto e teme tanto perder este porto seguro que se esvai em conversas intermináveis madrugada adentro, desejando a presença de tal ausência.
Mas agora, acabo de notar que Sabina sente é vontade de ter mais carinho! É a evidência perfeita para que confirmemos o quanto ela é uma pessoa presa à terra firme. Sabina está conosco, apenas deixa por vezes sua face perversa tomar conta de si. E agora, colegas? Como tratamos deste caso?
Ela pretende ser sincera, mas não até as últimas consequências, pois isto a traria novamente ao fundo do poço do amor escuro e sombrio.
Será que, por revelar sua alternância obscura Sabina não gostaria de experimentar novamente tal situação?
Esperemos para saber, afinal de contas, não há de se esperar que ela mude tão bruscamente... se mudar, há a tênue esperança de que volte a ser como sempre foi.
Já dizia Nietzsche, pressupondo o que sinto agora: "O medo é o pai da moralidade".
Sabina, seja imoral.
quarta-feira, 3 de março de 2010
futricaram os baús da Babilônia
Meio à tanta psicologia borbulhante dentro de uma sala minúscula, percebo o quanto tenho que fazer nesta vida. São casos de abandono, depressão, cognição, euforia e entre outras preocupações, a minha centrava-se em ser uma profissional eficaz. Depois de tanto tempo (que às vezes sinto pouco) de devaneios teóricos, preocupações de leitura e desesperos acadêmicos, me vejo diante de seres humanos que precisam de ajuda. O que eu faço?
Olhinhos esbugalhados que me fitam durante toda a primeira entrevista, sorrisos disfarçados, que mais revelam a profunda e aniquilante inquietação da alma daqueles pobres infelizes que são como eu (fora do consultório) : humanos, demasiadamente humanos.
Me forço a prestar atenção em cada movimento, palavra, gracejo. Tudo hoje é importante. Tudo hoje é necessário. Tudo, menos o essencial. Eu acredito que o maior segredo da terapia encontra-se nos primeiros instantes desta. A apresentação de um paciente, sua auto avaliação, seu próprio diagnóstico, sua queixa. Palavrinha tão utilizada.. me fez pensar.
Por que nos queixamos? Lendo Freud eu entendo que há algo de prazeroso no desprazer.
Sendo mais clara..
Gostamos de sofrer; gostamos de passar por situações dolorosas para dizermos, pensarmos e sentirmos que PASSAMOS por elas.
Tio Sig dizia que há um ápice de tensão libidinal em que o indivíduo desloca a sua energia justamente pro que há de mais sutil na existência humana: o inanimado. O processo se dá como em uma montanha russa: de início estamos no plano, andamos devagar e a expectativa é o sentimento que reina. Quando estamos no alto, há algo inexplicável por parte de quem sente, uma excitação incomensurável que simplesmente toma conta de nós. A primeira reação, a princípio, seria acabar com a tensão (deixando-se cair e deslizar pela montanha russa). Ao cair, vem o alívio; porém, a sensação de poder e exaltação que sentiu-se lá em cima é lembrada com furor por uns, com pavor por outros.
Resumidamente Freud nos diz que nesse ponto alto da emoção é que "tomamos a poção mágica" do vício. A aventura instiga, o impossível atrai. Quando o temos, queremos mais é desfazer tudo o que fora feito para dirigirmos à outro objeto a nossa pulsão original.
Não só por isso admiro o título de tal obra, mas dizer que o que há Além do Princípio do Prazer é este gozo descrito por Lacan no inesperado é dizer-me que posso viver sem culpas, pois o que gosto é da renúncia mesmo.
Aprendizagem, silêncio, sono, medo, expectativas, atrevimento, ambição, angústia, euforia, apego e cansaço são as palavras do dia, já que o estágio está apenas começando.
Olhinhos esbugalhados que me fitam durante toda a primeira entrevista, sorrisos disfarçados, que mais revelam a profunda e aniquilante inquietação da alma daqueles pobres infelizes que são como eu (fora do consultório) : humanos, demasiadamente humanos.
Me forço a prestar atenção em cada movimento, palavra, gracejo. Tudo hoje é importante. Tudo hoje é necessário. Tudo, menos o essencial. Eu acredito que o maior segredo da terapia encontra-se nos primeiros instantes desta. A apresentação de um paciente, sua auto avaliação, seu próprio diagnóstico, sua queixa. Palavrinha tão utilizada.. me fez pensar.
Por que nos queixamos? Lendo Freud eu entendo que há algo de prazeroso no desprazer.
Sendo mais clara..
Gostamos de sofrer; gostamos de passar por situações dolorosas para dizermos, pensarmos e sentirmos que PASSAMOS por elas.
Tio Sig dizia que há um ápice de tensão libidinal em que o indivíduo desloca a sua energia justamente pro que há de mais sutil na existência humana: o inanimado. O processo se dá como em uma montanha russa: de início estamos no plano, andamos devagar e a expectativa é o sentimento que reina. Quando estamos no alto, há algo inexplicável por parte de quem sente, uma excitação incomensurável que simplesmente toma conta de nós. A primeira reação, a princípio, seria acabar com a tensão (deixando-se cair e deslizar pela montanha russa). Ao cair, vem o alívio; porém, a sensação de poder e exaltação que sentiu-se lá em cima é lembrada com furor por uns, com pavor por outros.
Resumidamente Freud nos diz que nesse ponto alto da emoção é que "tomamos a poção mágica" do vício. A aventura instiga, o impossível atrai. Quando o temos, queremos mais é desfazer tudo o que fora feito para dirigirmos à outro objeto a nossa pulsão original.
Não só por isso admiro o título de tal obra, mas dizer que o que há Além do Princípio do Prazer é este gozo descrito por Lacan no inesperado é dizer-me que posso viver sem culpas, pois o que gosto é da renúncia mesmo.
Aprendizagem, silêncio, sono, medo, expectativas, atrevimento, ambição, angústia, euforia, apego e cansaço são as palavras do dia, já que o estágio está apenas começando.
segunda-feira, 1 de março de 2010
eu liricando falando na poesia
(...) Cássio* de quê? Cássio, simplesmente Cássio. Não basta?
(...) - Cássio de Tal - ele havia dito -, Mariana de Tal, o resto não interessa. Que mania vocês têm de sobrenome, do de antes do sobrenome, os antepassados importantes, as famílias que vem do tempo do Império, o apartamento na beira do mar, o carrão preto e luzidio com o motorista fardado a abrir a porta aos patrões; isso tudo não passa de perfurmaria e você sabe disso (...).
Simplesmente você. Ás vezes sem lenço, sem documento, sem frescuras, sem reservas, sem vergonhas, sem roupas. Só você. Se pudéssemos colocar cada ser humano lado a lado, cada qual com sua peculiaridade, sem maiores interferências de uma suposta moralidade, estaríamos diante do real espetáculo da vida. Veríamos sorrisos, veríamos o indivíduo em cena, indivíduos juntos que constróem... o que?
Juntos ou separados?
O budismo prega, dentre tantas filosofias interessantes, a arte do desapego material. É evidente que diversas outras doutrinas religiosas e de pensamento convergem no que diz respeito à ocupar-se da espiritualidade como forma de melhorar a qualidade de vida.
Recorrer à filosofia sempre foi um hobbie, e hoje eu peço que parem de rodar o planeta e entendam que só escrevo quando não vivo.
Estou hoje numa fase em que vivo pela metade, e por isto minha escrita não se mostra de qualidade como as demais, mas aqui estou eu, regressando.
Quando estou sem fôlego, quando estou dentro do movimento repetitivo que o mundo proporciona, eu percebo as coisas, eu capto as coisas, eu me transformo nas coisas. Quando a vida passa, eu escrevo. Eu deságuo, eu evacuo os sentimentos que afloraram durante a minha primavera emocional.
Quando me desapego da escrita, sinto que algo falta, que algo se perde. A escrita é, por via das dúvidas, a forma mais certeira de se registrar algo. Mas aí me pego no paradoxo de imaginar a cena de um casal sentado na grama quente do sol com um vento gelado acariciando seus rostos. Eles se abraçam e apreciam a vista.
Isto eu registro em descrição, mas nunca será um registro absoluto, pois o cheiro, o olhar, o toque, todos estes, são transcendentais.
Penso hoje em ti, Cássio, desapegado dos teus costumes, largado dos teus princípios, separado do teu passado. Estás certo de que nada disso voltará? Não te induzo a pensar que desconfio de ti. Jamais, confio como jamais confiei.
Mas te desafio a pensar, em liberdade - a qual combinamos - que penses se o que há é algo que em ti borbulha.
Digo que acho esplêndido o desapego, mas assumo que sou apegada e sou materialista. Não como Freud costumava se auto denominar, ou como pensamos no radicalismo da expressão. Sou zen e constantemente espirituosa. Tenho lá minhas supertições e manias, assim como todos, e torço para que tu, Cássio, descubra-as, comente-as, ame-as.
Torço para que tu te entregues, quero te conhecer por inteiro, quero te roubar do teu corpo, quero te manter leve, quero desbravar todos os mares que um dia se mostrarem turvos.
Só preciso, Cássio, que voltes da Itália e aterrise em terra firme.
(...) - Cássio de Tal - ele havia dito -, Mariana de Tal, o resto não interessa. Que mania vocês têm de sobrenome, do de antes do sobrenome, os antepassados importantes, as famílias que vem do tempo do Império, o apartamento na beira do mar, o carrão preto e luzidio com o motorista fardado a abrir a porta aos patrões; isso tudo não passa de perfurmaria e você sabe disso (...).
Simplesmente você. Ás vezes sem lenço, sem documento, sem frescuras, sem reservas, sem vergonhas, sem roupas. Só você. Se pudéssemos colocar cada ser humano lado a lado, cada qual com sua peculiaridade, sem maiores interferências de uma suposta moralidade, estaríamos diante do real espetáculo da vida. Veríamos sorrisos, veríamos o indivíduo em cena, indivíduos juntos que constróem... o que?
Juntos ou separados?
O budismo prega, dentre tantas filosofias interessantes, a arte do desapego material. É evidente que diversas outras doutrinas religiosas e de pensamento convergem no que diz respeito à ocupar-se da espiritualidade como forma de melhorar a qualidade de vida.
Recorrer à filosofia sempre foi um hobbie, e hoje eu peço que parem de rodar o planeta e entendam que só escrevo quando não vivo.
Estou hoje numa fase em que vivo pela metade, e por isto minha escrita não se mostra de qualidade como as demais, mas aqui estou eu, regressando.
Quando estou sem fôlego, quando estou dentro do movimento repetitivo que o mundo proporciona, eu percebo as coisas, eu capto as coisas, eu me transformo nas coisas. Quando a vida passa, eu escrevo. Eu deságuo, eu evacuo os sentimentos que afloraram durante a minha primavera emocional.
Quando me desapego da escrita, sinto que algo falta, que algo se perde. A escrita é, por via das dúvidas, a forma mais certeira de se registrar algo. Mas aí me pego no paradoxo de imaginar a cena de um casal sentado na grama quente do sol com um vento gelado acariciando seus rostos. Eles se abraçam e apreciam a vista.
Isto eu registro em descrição, mas nunca será um registro absoluto, pois o cheiro, o olhar, o toque, todos estes, são transcendentais.
Penso hoje em ti, Cássio, desapegado dos teus costumes, largado dos teus princípios, separado do teu passado. Estás certo de que nada disso voltará? Não te induzo a pensar que desconfio de ti. Jamais, confio como jamais confiei.
Mas te desafio a pensar, em liberdade - a qual combinamos - que penses se o que há é algo que em ti borbulha.
Digo que acho esplêndido o desapego, mas assumo que sou apegada e sou materialista. Não como Freud costumava se auto denominar, ou como pensamos no radicalismo da expressão. Sou zen e constantemente espirituosa. Tenho lá minhas supertições e manias, assim como todos, e torço para que tu, Cássio, descubra-as, comente-as, ame-as.
Torço para que tu te entregues, quero te conhecer por inteiro, quero te roubar do teu corpo, quero te manter leve, quero desbravar todos os mares que um dia se mostrarem turvos.
Só preciso, Cássio, que voltes da Itália e aterrise em terra firme.
sábado, 20 de fevereiro de 2010
chutando a arte da prudência
E como saber se estamos fadados ao fracasso?
Quando começar a invejar a felicidade alheia, sentirás...
Quando começar a invejar a felicidade alheia, sentirás...
domingo, 14 de fevereiro de 2010
if
... e ela continua esperançosa. Não é uma esperança otimista, de sentir as coisas dando certo, ou imaginar com um sorriso o que há por vir. Sabina preenche a sua falta imaginando como seria seu futuro caso coisas boas e ruins acontecessem. Ela não quer o tempo presente...desdenha ele. O passado ela enterra e tem náuseas ao recordar. E o futuro.. ah! O futuro para Sabina é o seu passatempo preferido. Imaginar sem o compromisso tem dois aspectos vantajosos, mas perigosos.
(1) Pensa, imagina, cria, sonha, goza com essa possibilidade que tem em não precisar se comprometer; caso faça algo errado, pode recriar sem sofrer consequências.
Porém, (2) Sabendo que é só imaginação, o quão distante está do que realmente quer?Ora, vamos pensar... se ela imagina as coisas com um desejo vindouro, é porque quer que isto aconteça, em alguma instância. Se Sabina também sabe que em imaginar não se compromete, fica na iminência de fazer/não fazer.
Ela prefere o futuro, pois por mais que em seu corpo a sensualidade esteja estampada, por mais que suas palavras corroam ao fundo suas vítimas, ainda por mais que ela seja, diante de todos os fatos, uma egocêntrica altruísta, Sabina teme que fique só. Seus atos e devaneios a entrelaçam, enrolam sua consciência da mesma forma como Taylor a acolhe na cama após uma noite sem fôlegos.
Infinitamente desorientada, Sabina irradia seu encanto e faz um espetáculo frente os olhos de todos. Agrada, mas por dentro está corroída, pois sofre do pior infâmia que pôde ser acometida: a dúvida.Comenta-se que os medrosos preferem o futuro, pois podem passar o presente planejando e nunca fazer nada.
Ela teme e psicossomatiza sua angústia pois a tentação chega muito perto, encosta e a espera. Seguí-la seria confirmar a existência de um gozo esperado, o ápice das realizações camufladas em singelas conversas virtuais.
Ponderar, considerando as partes envolvidas a faria, provavelmente, abrir mão da tentação, evitar a mordida da maçã e assim, continuar em suas ilusões nunca concretizadas. Até aonde a nossa moral nos impede de realizar nossos desejos? Como sanar um impasse que consome dia e noite, enoja, machuca, prende a respiração?
Se o fizer, ficará com medo, arrependida por alguns momentos, com a consciência pesada. Mas nada que nunca tenha acontecido com Sabina.. ela já agiu, em menor grau, de tal forma.
Se não o fizer, algum dia sentirá remorso por não saber apreciar a vida. E o conflito entre a marca registrada em seu corpo e sua filosofia de vida entrará em cena, intensificando mais ainda sua náusea.Dadas as cartas, restamos a concluir que agir seria a melhor opção. Mas como? Sabina, apesar de tudo, é uma lebre perdida no escuro, tem medo e isto a impede.
Estamos em outra discussão, a que traz à tona todas as trancas que nos impedem de darmos um passo no escuro.Quem trará as respostas meio à tanto fogo aceso?
(1) Pensa, imagina, cria, sonha, goza com essa possibilidade que tem em não precisar se comprometer; caso faça algo errado, pode recriar sem sofrer consequências.
Porém, (2) Sabendo que é só imaginação, o quão distante está do que realmente quer?Ora, vamos pensar... se ela imagina as coisas com um desejo vindouro, é porque quer que isto aconteça, em alguma instância. Se Sabina também sabe que em imaginar não se compromete, fica na iminência de fazer/não fazer.
Ela prefere o futuro, pois por mais que em seu corpo a sensualidade esteja estampada, por mais que suas palavras corroam ao fundo suas vítimas, ainda por mais que ela seja, diante de todos os fatos, uma egocêntrica altruísta, Sabina teme que fique só. Seus atos e devaneios a entrelaçam, enrolam sua consciência da mesma forma como Taylor a acolhe na cama após uma noite sem fôlegos.
Infinitamente desorientada, Sabina irradia seu encanto e faz um espetáculo frente os olhos de todos. Agrada, mas por dentro está corroída, pois sofre do pior infâmia que pôde ser acometida: a dúvida.Comenta-se que os medrosos preferem o futuro, pois podem passar o presente planejando e nunca fazer nada.
Ela teme e psicossomatiza sua angústia pois a tentação chega muito perto, encosta e a espera. Seguí-la seria confirmar a existência de um gozo esperado, o ápice das realizações camufladas em singelas conversas virtuais.
Ponderar, considerando as partes envolvidas a faria, provavelmente, abrir mão da tentação, evitar a mordida da maçã e assim, continuar em suas ilusões nunca concretizadas. Até aonde a nossa moral nos impede de realizar nossos desejos? Como sanar um impasse que consome dia e noite, enoja, machuca, prende a respiração?
Se o fizer, ficará com medo, arrependida por alguns momentos, com a consciência pesada. Mas nada que nunca tenha acontecido com Sabina.. ela já agiu, em menor grau, de tal forma.
Se não o fizer, algum dia sentirá remorso por não saber apreciar a vida. E o conflito entre a marca registrada em seu corpo e sua filosofia de vida entrará em cena, intensificando mais ainda sua náusea.Dadas as cartas, restamos a concluir que agir seria a melhor opção. Mas como? Sabina, apesar de tudo, é uma lebre perdida no escuro, tem medo e isto a impede.
Estamos em outra discussão, a que traz à tona todas as trancas que nos impedem de darmos um passo no escuro.Quem trará as respostas meio à tanto fogo aceso?
Assinar:
Postagens (Atom)